Nesta semana o INEP divulgou as médias obtidas pelas escolas no Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM 2010. Tais dados podem ser consultados no link abaixo:
http://sistemasenem2.inep.gov.br/enemMediasEscola/ .
Registrou-se nesta edição do ENEM um mirífico aumento da média do desempenho nacional em quase dez pontos (de 501 para 511, aproximadamente), provavelmente oriundo do mecanismo de avaliação conhecido como Teoria de Resposta ao Item (TRI), o qual abre margem para manipulação dos resultados, uma vez que a partir dele busca-se identificar estatisticamente as questões em que o candidato possivelmente tenha "chutado".
O governo muito se vangloriou deste insignificante aumento, o qual, aliás, foi atingido unicamente pelo desempenho das escolas privadas, as quais começam a utilizar o bom desempenho de seus alunos no exame como forma de propaganda. Ou seja, exalta-se a qualidade e o aperfeiçoamento do ensino público baseando-se nos resultados do ENEM 2010 quando de fato o ensino público não teve nenhuma qualquer participação neste aumento. Ao se comparar as irrisórias médias das escolas públicas com as médias das escolas particulares, constata-se o abismo existente e no qual o ensino público brasileiro a cada edição do ENEM mais se afunda.
De quantas edições do ENEM ainda precisaremos para perceber que o foco do ensino precisa ser o trinômio aluno-professor-escola, não fantasmagóricos exames de finalidade puramente estatística, estatísticas estas usadas exclusivamente na tentativa de mascarar o vergonhoso quadro negro em que se encontra a educação pública no Brasil?
Zeitgeist ou Outra Coisa
Zeitgeist é um dos principais movimentos da atualidade que propõem a instauração de um novo modelo social baseado em recursos naturais, e não em ilusórios recursos financeiros. Como diz o título deste blog, Zeitgeist ou qualquer coisa, alguma providência nesse sentido mostra-se urgentemente necessária.
Acrópole, arranhacéu
É incontestável a influência do mundo helênico na constituição do mundo ocidental contemporâneo. Provas imediatas dessa constatação são as palavras "democracia", "cidadão", "senado", entre tantas outras, relacionadas principalmente à forma de organização adotada em nossa sociedade.
Não há dúvidas que a civilização grega alcançou níveis de desenvolvimento e organização ímpares na história da humanidade, porém é necessário destacar quais foram os pilares dessas façanhas sociais e, a partir daí, demonstrar por que esses parâmetros helênicos de sociedade são inaplicáveis e, acima de tudo, daninhos ao nosso contexto histórico.
A chamada Grécia Antiga não tem muitos vínculos com o país que atualmente conhecemos como Grécia. É mais apropriado utilizar-se o termo Civilizações Helênicas para designar as populações que habitavam as diversas faixas litorâneas e as ilhas do Mediterrâneo e que em comum possúiam primordialmente e em muitos casos apenas a língua grega.
A sociedade clássica grega estruturou-se baseada fundamentalmente na mão-de-obra escrava, obtida principalmente nos campos de batalhas. A atividade agrícola era a principal geradora de riquezas, fazendo dos proprietários de terras (que geralmente eram também os donos dos meios de produção, como a prensa para produzir azeite de oliva) homens abastados e respeitados. Estes constituíam a grande maioria do grupo dos cidadãos, aqueles que decidiam os rumos econômicos, políticos e sociais sem a necessidade da eleição de representantes, pois representavam-se a si mesmos. Os outros cidadãos eram artesãos, filósofos, comerciantes, entre outros.
O fato mais relevante que permitiu que esta estrutura funcionasse de forma "eficiente" foi sua inerente simplicidade. Os escravos e os trabalhadores livres garantiam a produção dos meios de subsistência, enquanto os fazendeiros resolviam todo o resto: de eventos culturais ao valor dos impostos cobrados. Devido a pequena quantidade de efetivos "cidadãos", não era difícil gerenciar a sociedade dessa forma.
Sintetizando, os poucos cidadãos não elegiam representantes pois possuíam competência suficiente para fazê-lo por si mesmos, criavam suas leis e governavam obviamente objetivando seus próprios interesses, enquanto o trabalho escravo garantia a subsistência. Isto posto, comparemos com a situação da nossa sociedade: terceirizamos nossa representatividade na criação de leis e na condução dos assuntos de nossos interesses, ao mesmo tempo em que constituímos nós mesmo a força de trabalho que sustenta todo o sistema. A questão que surge é: como podemos aceitar um sistema social baseado na escravocracia, no qual nós mesmos assumimos de bom grado o papel que fora relegado aos escravos?
Pode parecer exagero comparar-nos a escravos, porém analisemos a fundo a situação: escravos recebiam abrigo e comida em troca de trabalho, apesar de não serem consultados antes de cederem sua força de trabalho. Nós, trabalhadores modernos, trocamos nossa força de trabalho, na maioria dos casos sem boa vontade, em troca daquilo que pode nos proporcionar abrigo e comida, além de algumas regalias, as quais têm a incrível capacidade de nos deixar felizes, contentes, satisfeitos, enfim, praticamente conformados com o fato de cedermos nossa força de trabalho a preço de banana verde. Assim, o trabalhador moderno não tende a se evadir de seu local de trabalho, não tende a se revoltar, não tende a incomodar seu senhor, quero dizer, seu empregador, de forma que este não precisa se preocupar em capturar a mão de obra, não tem gastos em sua contenção e, no improvável caso de seu "empregado" abandonar seu "posto", haverá sempre outro desesperado para ocupar o lugar vago.
Por falar em gregos, o próprio Aristóteles afirmou: a escravidão só terá fim quando as liras tocarem-se por si sós e as agulhas costurarem por si sós. Pois bem, a tecnologia evoluiu quanticamente desde então, ao contrário da mentalidade humana. Vivemos como se ainda dependêssemos do trabalho humano para nossa subsistência. Ledo engano. Poucas atividades relevantes (relacionadas à produção de alimentos) ainda são desempenhadas por homens e mulheres mais por uma questão de ocupação do que de necessidade: quase metade da população mundial ainda vive (pasmem) nas regiões rurais, onde coisas como shoppings, arranhacéus, transporte público, barracas de cachorro-quente e tantas outras fazem pouco ou nenhum sentido. Assim sendo, o que as maravilhas do capitalismo teriam a oferecer a tais pessoas? Trabalho, no bom e velho sentido da palavra: calo na mão e sol na cabeça, não por necessidade, eu reforço, mas por falta de opção.
Basta seguir aquela famosa relação da capacidade de obtenção de alimentos: 1 homem + 1 enxada = 3 pessoas alimentadas; 1 homem + 1 animal de tração = 6 pessoas alimentadas; 1 homem + 1 máquina = 50 pessoas alimentadas; apenas máquinas fazendo o trabalho = o mundo (pelo menos o desenvolvido) inteiro alimentado.
Acordemos. Os princípios sobre os quais está construída nossa forma de viver e ver o mundo estão completamente desatualizados.
Pare para pensar por um momento: qual é a finalidade do seu trabalho? Tente imaginar um cadeia que começa no resultado das suas atividades e se estende até... umas poucas corporações que estão enriquecendo às custas da alienação de bilhões de pessoas e da alucinada incineração dos recursos naturais nas fornalhas do consumismo cego. Estas corporações são os novos senhores, os novos mecenas, os novos imperadores.
O mundo em que vivemos é aquele que queremos ver: um mundo em que todos têm chances iguais de conquistar sucesso profissional, adquirir bens de luxo, ter uma boa alimentação e moradia, educar de forma satisfatória seus filhos, consumir espontaneamente todas as aberrações alimentícias que estão nas prateleiras, além de muitas outras vantagens propagadas pela TV; ou um mundo absolutamente dependente de apenas um recurso natural que vai comprovadamente se esgotar e que, como um viciado, sacrifica o bem estar social e ambiental para satisfazer suas necessidades insanas.
Pesquise. Indague. Conteste. Forme sua própria visão de mundo. Sua mente, ao menos, não precisa estar presa ao sistema.
Não há dúvidas que a civilização grega alcançou níveis de desenvolvimento e organização ímpares na história da humanidade, porém é necessário destacar quais foram os pilares dessas façanhas sociais e, a partir daí, demonstrar por que esses parâmetros helênicos de sociedade são inaplicáveis e, acima de tudo, daninhos ao nosso contexto histórico.
A chamada Grécia Antiga não tem muitos vínculos com o país que atualmente conhecemos como Grécia. É mais apropriado utilizar-se o termo Civilizações Helênicas para designar as populações que habitavam as diversas faixas litorâneas e as ilhas do Mediterrâneo e que em comum possúiam primordialmente e em muitos casos apenas a língua grega.
A sociedade clássica grega estruturou-se baseada fundamentalmente na mão-de-obra escrava, obtida principalmente nos campos de batalhas. A atividade agrícola era a principal geradora de riquezas, fazendo dos proprietários de terras (que geralmente eram também os donos dos meios de produção, como a prensa para produzir azeite de oliva) homens abastados e respeitados. Estes constituíam a grande maioria do grupo dos cidadãos, aqueles que decidiam os rumos econômicos, políticos e sociais sem a necessidade da eleição de representantes, pois representavam-se a si mesmos. Os outros cidadãos eram artesãos, filósofos, comerciantes, entre outros.
O fato mais relevante que permitiu que esta estrutura funcionasse de forma "eficiente" foi sua inerente simplicidade. Os escravos e os trabalhadores livres garantiam a produção dos meios de subsistência, enquanto os fazendeiros resolviam todo o resto: de eventos culturais ao valor dos impostos cobrados. Devido a pequena quantidade de efetivos "cidadãos", não era difícil gerenciar a sociedade dessa forma.
Sintetizando, os poucos cidadãos não elegiam representantes pois possuíam competência suficiente para fazê-lo por si mesmos, criavam suas leis e governavam obviamente objetivando seus próprios interesses, enquanto o trabalho escravo garantia a subsistência. Isto posto, comparemos com a situação da nossa sociedade: terceirizamos nossa representatividade na criação de leis e na condução dos assuntos de nossos interesses, ao mesmo tempo em que constituímos nós mesmo a força de trabalho que sustenta todo o sistema. A questão que surge é: como podemos aceitar um sistema social baseado na escravocracia, no qual nós mesmos assumimos de bom grado o papel que fora relegado aos escravos?
Pode parecer exagero comparar-nos a escravos, porém analisemos a fundo a situação: escravos recebiam abrigo e comida em troca de trabalho, apesar de não serem consultados antes de cederem sua força de trabalho. Nós, trabalhadores modernos, trocamos nossa força de trabalho, na maioria dos casos sem boa vontade, em troca daquilo que pode nos proporcionar abrigo e comida, além de algumas regalias, as quais têm a incrível capacidade de nos deixar felizes, contentes, satisfeitos, enfim, praticamente conformados com o fato de cedermos nossa força de trabalho a preço de banana verde. Assim, o trabalhador moderno não tende a se evadir de seu local de trabalho, não tende a se revoltar, não tende a incomodar seu senhor, quero dizer, seu empregador, de forma que este não precisa se preocupar em capturar a mão de obra, não tem gastos em sua contenção e, no improvável caso de seu "empregado" abandonar seu "posto", haverá sempre outro desesperado para ocupar o lugar vago.
Por falar em gregos, o próprio Aristóteles afirmou: a escravidão só terá fim quando as liras tocarem-se por si sós e as agulhas costurarem por si sós. Pois bem, a tecnologia evoluiu quanticamente desde então, ao contrário da mentalidade humana. Vivemos como se ainda dependêssemos do trabalho humano para nossa subsistência. Ledo engano. Poucas atividades relevantes (relacionadas à produção de alimentos) ainda são desempenhadas por homens e mulheres mais por uma questão de ocupação do que de necessidade: quase metade da população mundial ainda vive (pasmem) nas regiões rurais, onde coisas como shoppings, arranhacéus, transporte público, barracas de cachorro-quente e tantas outras fazem pouco ou nenhum sentido. Assim sendo, o que as maravilhas do capitalismo teriam a oferecer a tais pessoas? Trabalho, no bom e velho sentido da palavra: calo na mão e sol na cabeça, não por necessidade, eu reforço, mas por falta de opção.
Basta seguir aquela famosa relação da capacidade de obtenção de alimentos: 1 homem + 1 enxada = 3 pessoas alimentadas; 1 homem + 1 animal de tração = 6 pessoas alimentadas; 1 homem + 1 máquina = 50 pessoas alimentadas; apenas máquinas fazendo o trabalho = o mundo (pelo menos o desenvolvido) inteiro alimentado.
Acordemos. Os princípios sobre os quais está construída nossa forma de viver e ver o mundo estão completamente desatualizados.
Pare para pensar por um momento: qual é a finalidade do seu trabalho? Tente imaginar um cadeia que começa no resultado das suas atividades e se estende até... umas poucas corporações que estão enriquecendo às custas da alienação de bilhões de pessoas e da alucinada incineração dos recursos naturais nas fornalhas do consumismo cego. Estas corporações são os novos senhores, os novos mecenas, os novos imperadores.
O mundo em que vivemos é aquele que queremos ver: um mundo em que todos têm chances iguais de conquistar sucesso profissional, adquirir bens de luxo, ter uma boa alimentação e moradia, educar de forma satisfatória seus filhos, consumir espontaneamente todas as aberrações alimentícias que estão nas prateleiras, além de muitas outras vantagens propagadas pela TV; ou um mundo absolutamente dependente de apenas um recurso natural que vai comprovadamente se esgotar e que, como um viciado, sacrifica o bem estar social e ambiental para satisfazer suas necessidades insanas.
Pesquise. Indague. Conteste. Forme sua própria visão de mundo. Sua mente, ao menos, não precisa estar presa ao sistema.
Assassino Passivo
Enquanto nosso estilo de vida estiver atrelado aos diversos mecanismos de fabricação de morte em massa necessários para mantê-lo, não poderemos progredir de forma nenhuma. Se não coseguimos corrigir as coisas erradas, como poderemos fazer as coisas certas?
Se conseguimos nos sentar numa praça de alimentação super lotada e saborear "deliciosos" pedaços de carne de vacas que jamais viram a luz do sol e que jamais pisaram ou comeram grama, de porcos que jamais cheiraram lama ou terra, de galinhas que dormem sobre as próprias fezes devido à falta de espaço nos escuros e fétidos galpões de criação, se conseguimos saciar nosso bizarro apetite sem jamais parar por um momento para refletir de onde veio e como viveu aquela fração de ser-vivo que está no meio do pão com gergelim, então não há esperança, pois implica que dentro desse sistema os bovinos são apenas leite e hambúrguer, os suínos são apenas bacon e presunto, os galináceos são apenas nuggets e ovos, e você é apenas aquele que está faminto para pagar por toda esta monstruosidade.
Se conseguimos nos sentar numa praça de alimentação super lotada e saborear "deliciosos" pedaços de carne de vacas que jamais viram a luz do sol e que jamais pisaram ou comeram grama, de porcos que jamais cheiraram lama ou terra, de galinhas que dormem sobre as próprias fezes devido à falta de espaço nos escuros e fétidos galpões de criação, se conseguimos saciar nosso bizarro apetite sem jamais parar por um momento para refletir de onde veio e como viveu aquela fração de ser-vivo que está no meio do pão com gergelim, então não há esperança, pois implica que dentro desse sistema os bovinos são apenas leite e hambúrguer, os suínos são apenas bacon e presunto, os galináceos são apenas nuggets e ovos, e você é apenas aquele que está faminto para pagar por toda esta monstruosidade.
Princípios Contraditórios do Mundo
Admito facilmente que há grande número de opiniões que homens de diferentes países, educação e temperamentos, receberam e aceitaram como os primeiros e inquestionáveis princípios. Vários deles, porém, não só por seu absurdo como por sua recíproca oposição, revelam a impossibilidade de que sejam verdadeiros. Embora inúmeras dessas proposições estejam bem afastadas da razão, são a tal ponto sagradas para uma ou outra região que mesmo os homens de bom entendimento em outros assuntos bem cedo as compartilham em suas vidas, e, seja o que for que lhes é o mais querido, têm sua verdade submetida a dúvidas, ou questões.
(John Locke. Ensaio Acerca do Entendimento Humano. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1999. 48 p.)
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