Contudo, chegamos a um ponto em nossa empreitada em que se percebe uma profunda inversão de valores: o edifício está sendo usado para suportar o suporte! A sociedade tem experimentado nos últimos 300 anos, mais acentuadamente no último século, uma ascendência tão vertiginosa, uma evolução tão tangível, que sua função primordial de suporte ao desenvolvimento humano distorceu-se ao ponto de a relação inversa ter se instaurado: o desenvolvimento humano cada vez mais está voltado para a manutenção da sociedade.
Que aqui fique clara uma importante premissa: sociedade e humanidade não são sinônimos. Provavelmente trata-se de uma relação simbiótica, uma vez que a jornada do Homo Sapiens no planeta Terra seria totalmente diversa sem ela; elevando-se a especulação, talvez o próprio Homo Sapiens sequer tivesse surgido ou prosperado sem os rudimentos de um suporte social.
Obviamente a estrutura social sempre apresentou uma terrível inclinação para sobrepujar os interesses humanos em benefício próprio. Os referidos interesses podem ser identificados com o bem-estar (de todos, a curto e longo prazo), aprimoramento técnico, evolução cultural, e, baseada nesta última, renovação das estruturas sociais orientada pelo citado aprimoramento técnico, científico e tecnológico, em busca do primordial bem-estar de todos, a partir do qual se propicia o desenvolvimento da natural tendência de evolução individual, constatada não apenas em seres-humanos, mas também em qualquer ser vivo.
Ao deter-se em necessidades imediatistas, superficiais e de minorias, cuja satisfação traz subjacentes prejuízos ao próprio ser-humano e ao meio ambiente do qual ele primariamente depende, a sociedade, instrumento auxiliar, tende a sufocar o motivo de sua própria existência. A dominação exercida pela sociedade, grosso modo religiosa num primeiro momento e monetária contemporaneamente, justificava-se pela falta de conhecimento do mundo natural, subjugava o intelecto com o pesado martelo da subsistência, valia-se de instituições falaciosas para moldar o comportamento humano a seu bel-prazer.
Assim chegamos ao cerne da questão: como hoje, com todo nosso conhecimento científico, maravilhas tecnológicas, evolução dos meios de produção, potencialidade quase infinita dos meios de comunicação, ainda nos deixamos escravizar por aquela que deveria ser nossa escrava? Por que não renovamos e melhoramos uma ferramenta já tão enferrujada e desgastada pelo tempo? Por que ainda tememos mitos de mais de dois mil anos atrás? Por que não reformamos as instituições cujas finalidades são redundantes, instituições que existem apenas para sustentarem a si mesmas? Por que nos submetemos a fronteiras imaginárias, a diferenças indiferentes, a discursos vazios? Por que intermediamos nossas relações com os recursos naturais, sobre os quais todos deveriam ter o mesmo direito, através de elementos tão incoerentes e desnecessários, como hereditariedade e dinheiro? Enfim, por que temos de viver uma vida tão dura e sermos privados de tantas coisas simples?
Eu não estou satisfeito com o modo como as coisas são e não conheço ninguém que esteja plenamente. A última e derradeira pergunta é: por que ninguém faz nada a respeito?
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